“O cérebro eletrônico faz tudo/ Faz quase tudo/ Faz quase tudo/
Mas ele é mudo (...)
Só eu posso pensar/ Se Deus existe/ Só eu/ Só eu posso chorar/ Quando estou triste/ Só eu...”
Cérebro Eletrônico. Gilberto Gil. 1969.
O advento da tecnologia vem trazendo grandes mudanças nas formas como enxergamos a arte e os artistas, uma vez que as ferramentas vão se transformando e gerando novas possibilidades de criação.
“Ferramentas”, no entanto, é a palavra-chave aqui. Como artistas, não somos contra o avanço tecnológico; muito pelo contrário. Há anos as cores digitais e os efeitos aplicados nas imagens vêm sendo utilizados nos quadrinhos, como forma de trazer à luz formas distintas de apresentar as histórias. Da tevê de tubo em preto e branco as enormes smarts com seus streamings, avançamos e nos adaptamos as mudanças. O quanto isso pode soar contraditório com o que vou dizer a seguir tem o mesmo peso da já citada palavra-chave: “Ferramentas”.
Elas estão entre nós e vieram para ficar. As Inteligências Artificiais irão se fazer presentes em praticamente tudo, e seria tolice lutar contra elas.
UÉ? Esse não deveria ser o texto onde eu digo que odeio as I.A.s e me recuso a usá-las, ficando preso a um passado tradicionalista? Não, é claro que não. E o fato de muitos colegas pensarem que esse é o posicionamento de quem se manifesta sobre o assunto está causando um racha entre a classe, dividindo pessoas em lados, os que aderem ou não ao uso da Inteligência Artificial em suas obras. E não é assim. Não exatamente assim, pelo menos.
OK, uma pergunta: Quem aqui acredita em alma? Levantem as mãos. Eu aguardo.
Hmn... a maioria sim. Legal. Pois bem, vamos partir desse princípio. I.A.s possuem aplicações em áreas diversas, mas estamos falando de sua influência especificamente na arte, onde temos uma manifestação humana que envolve sentimentos dos mais diversos, da euforia à dor de cotovelo, envolvendo técnica, dedicação, talento e amor ao ofício. Ah sim, e para os que acreditam... Alma. Sendo assim, usar ferramentas tecnológicas que nos auxiliem nessa jornada sempre será uma opção válida. MAS OLHA SÓ, I.A.s não são ferramentas. Estamos falando de uma tecnologia capaz de ser treinada para produzir com base em rasos prompts de comando, utilizando um vasto banco de dados para formular imagens, textos, vídeos e áudios com pouquíssima ou nenhuma interferência direta da mão humana. E se hoje ela ainda não alcança um resultado perfeito, é questão de tempo para que isso aconteça. E aqui entra o dilema: Queremos que atores, escritores, ilustradores, dubladores e outros profissionais sejam substituídos por essa automação? É possível que esses trabalhadores possam coexistir com ela através de regulamentações e leis que garantam a existência dos artistas? Ainda seremos humanos se dependermos de máquinas para produzir nossa arte?
Depende de pra quem se pergunta. Os donos das grandes corporações. Os operários das diversas vertentes culturais. Os consumidores finais dessas obras. Os artistas.
Não estamos aqui para cravar nenhuma resposta definitiva. Essa só virá com o tempo.
Até 3030! (Se houver amanhã).
Foto de Gabriele Malaspina na Unsplash

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