A gente já começa morto.
É, desculpe desfazer suas ilusões, mas ninguém chega a viver de verdade. Comparados ao calendário do universo, somos eventos tão insignificantes que nem fazemos diferença. Nós, é claro, acreditamos no exato oposto disso, nos achamos os senhores das verdades absolutas, as mãos que regem o destino e mais: Não aceitamos a morte! Acreditamos que ao fim do funcionamento de nossas funções corpóreas, viveremos eternamente, seja como almas penadas ou espíritos zombeitros julgados ao um "Céu", "Inferno", ou ao que houver no meio, senão reencarnados ou digitalizados em algum super computador... Seja como for, não tudo isso não passa de uma infantilidade, um medo irracional manipulado pelas religiões aliada a uma supervalorização da nossa existência. Morrer? Tipo, a morte verdadeira, o vazio, a ausência da consciência? De jeito nenhum! E nossos sonhos? Nossas realizações? Nossos legados?
Lamento mais uma vez informar, mas nada disso importa.
O universo segue em sua constante mutação, destruindo e gerando mais vida, até colapsar e ele mesmo deixar de existir, ou seja lá o que venha depois.
Questões como "de onde viemos?" e "para onde vamos?" são irrelevantes. Estamos aqui de modo tão breve e imperceptível que seremos esquecidos em duas ou três gerações. A menos que ergam estátuas, coloquem nossos nomes em livros de história... E no fim, nada disso vai fazer diferença para nossa matéria orgânica apodrecida ou cremada. Continuaremos sendo apenas poeira que por acaso foi soprada neste mundo.
Não existem deuses, nem explicações.
Somos o que somos até não sermos mais.
Sob este ponto de vista, ao lado da escala universal, nem sequer estivemos vivos.
A gente já começa morto.
E tudo bem.
Boa noite. Bons sonhos.

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