Quando o mundo era jovem, os homens não viam diferença entre o sonho e a realidade, e transitavam pacificamente entre esses dois mundos. Conta a lenda que Yutaici, o deus sol e provedor de todas as aldeias teve sua companheira Tuasu, a deusa lua e guardiã dos sonhos levada por Tynanan, o deus das sombras e dos espíritos perdidos. Assumindo a forma de uma serpente descomunal, ele abocanhou a deusa, levando para o seu reino. Temendo que uma guerra entre ele e Tynanan trouxesse desgraça para todos os povos, ele apenas selou os limites que separavam o sonho da realidade e abençoou seus filhos com suas lágrimas, concedendo fertilidade para suas terras.
Assim sendo, Tynanan tentou desposar Tuasu, pois queria ter
com ela um filho que, munido da divindade de ambos, pudesse quebrar as
barreiras erguidas por Yutaici para que assim levasse sua horda de espíritos
corrompidos para o mundo dos homens.
Incapaz de resistir a ele em seu reino, ela gerou sua filha, Yunti. Mas
Tynanan não teria uma vitória completa, pois Tuasu isolou-se numa torre feita
do brilho da lua, o único lugar de seu reino em que ele não tinha poder. Ali
ela passou a viver com a criança, protegida pelas paredes de luar, e amou
profundamente sua filha, concedendo-lhe todo o seu conhecimento.
Um dia uma pedra de fora do mundo caiu através das nuvens,
rasgando o véu entre a luz e as sombras apenas por um momento, no qual Tynanan
aproveitou para atravessar, trazendo parte de seus guerreiros, um exército de
maus espíritos. Yutaici percebeu a invasão e iniciou uma batalha contra eles,
tendo seus valentes caçadores humanos como aliados.
A guerra trouxe muita morte e destruição, e parecia não ter
fim, pois as forças opostas de Tynanan e Yutaici eram equivalentes. Vendo que
esse seria o fim de toda a criação, Tuasu deixou seu refúgio e entrou na luta
para ajudar seu marido. Mesmo unidos, eles não conseguiam superar as hordas dos
espíritos perdidos, que eram capazes de influenciar os caçadores em seu favor.
Temendo que sua mãe lutasse uma causa perdida, Yunti a desobedeceu, e assumindo
a forma de um magnífico pássaro azul de olhos vermelhos, deixou a proteção da
torre. Com sua ajuda, eles conseguiram banir Tynanan de volta e trancafiá-lo na
torre do luar, mas era tarde para impedir que os espíritos perdidos que o
seguiram fossem confinados, e por isso a partir deste dia, os portais que separam
o sonho e a realidade foram novamente abertos, mas Tuasu decretou que os homens
só poderiam visitá-lo quando dormissem, tornando-se a guardiã dessa
passagem. Assim ela seria a soberana da
noite, enquanto Yutaici comandaria o dia, fortalecendo os caçadores e
guerreiros das aldeias sempre que preciso, além de oferecer-lhes boas
colheitas.
Quanto a Yunti, a ela foi dada a permissão de transitar
entre a realidade e os sonhos a qualquer momento, bem como levar os espíritos
perdidos de volta aos seus lugares, tornando-se essa a sua vocação.
Foto de Photoholgic na Unsplash

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