29 de fevereiro de 2020



Saudações.

Se estão lendo isso, a humanidade não existe mais. 

A data foi só uma formalidade. Não espero que acolham o tempo da mesma forma, muito menos que o quantifiquem em um calendário. Certamente já entenderam melhor do que nós sobre a natureza do tempo, espaço e as outras forças que sustentam o universo. Ou talvez estejam tão acima disso que a própria menção a tais elementos lhes pareça desnecessária. 

Essa mensagem é para vocês, embora na verdade eu nem saiba se há a necessidade de palavras, linguagem, signos, voz ou qualquer outro desses artifícios que usamos aqui. Afinal, estou me dirigindo aos que existirão depois de nós, e presumo que não estarão presos as limitações humanas.

Talvez vocês não precisem se comunicar porque alcançaram algum nível de singularidade que lhes confere a compreensão clara e imediata de tudo. Nesse caso eu não estaria me referindo a um grupo mas apenas a um indivíduo que é a soma de todos.  

Mas estou perdendo tempo especulando sobre os receptores da mensagem quando na verdade o objetivo é falar um pouco sobre nós. 

Os humanos. 

E como definir em poucas palavras a raça humana para vocês que virão depois de nós?

Bom, este poderia ser um conto sobre nosso desbravamento através das eras.  O futuro chegou tão rápido que todas as nossas projeções ficaram ultrapassadas. 

Eu me lembro de imaginar como seriam as coisas, os modos, os meios... Evoluímos tanto em tecnologia, ciência, automatizações, tornamos a vida mais "fácil", o mundo se resumiu à um clique de distância, e ao mesmo tempo tudo estava ficando cada vez mais distante e artificial. 

E não importa o quanto em nossa arrogância nos achássemos superiores, continuamos mentirosos e medíocres. Evolução tecnológica, não implica em evolução de caráter. Ainda estávamos à mercê de todos os medos e inseguranças, inseridos no mesmo e imutável conceito de competitividade, batalhas de egos, vaidade, cobiça, luxúria...

Essa aleatoriedade é inerente a nós, nos levando a caminhos de altruísmo ou extrema maldade. 

Guardem essa como uma de nossas palavras-chave: "Aleatoriedade". 

A combinação caótica dos sentimentos humanos, eternamente insatisfeitos, sempre em busca da próxima atualização que nunca será o suficiente. Nossas percepções de futuro sempre foram equivocadas. Buscamos por carros voadores e esquecemos de olhar para dentro. 

E o que nós somos? Não creio que nenhum de nós tenha realmente respondido essa pergunta, muito provavelmente porque não existe apenas uma resposta, mas incontáveis. Essa é outra palavra-chave que faz parte do que nos define: "Pluralidade". 

Somos aleatórios, somos plurais. 

E como terminamos?

Em termos metafísicos, seria essa a finalização da obra de Deus? O fim de Seu experimento, onde depois de concluído, foi apenas encerrado fazendo-O simplesmente voltar para onde veio?

Talvez sejamos (e gosto dessa teoria) uma mesma alma, (Deus?) fragmentada e distribuída em bilhões de corpos replicantes com sensações e anseios distintos, modelados pelo ambiente que nos cerca, pelas condições a que somos submetidos e pelo convívio daqueles que compartilham conosco nossa vida. Em meio a sofrimento e frustrações, buscas por ideais inalcançáveis, dor e culpa, necessidade de aceitação, afeto e amor...

(E dentro desses conceitos, vale destacar, a teoria com Deus foi uma escolha pessoal minha, certamente discutida e negada por muitos outros). 

Algo que poderia ser unânime é que em comum, todos queremos ser felizes. Mas será mesmo? Somos aleatórios. Somos plurais.

Não sei se isso é errado ou certo, mas é do que somos feitos. Porque se não for assim, não perderíamos nossa identidade? Seríamos máquinas frias, lógicas, moderadas, pacificadas, ordeiras e não humanas. E eu não precisaria escrever essa mensagem. 

"Identidade". Anote esta como uma palavra-chave também. 

Em algum momento, talvez devêssemos ter buscado a simplicidade em vez da supremacia, mas depois de tudo que já relatei aqui, fica fácil perceber que nunca alcançaríamos algum tipo extremo de ideal espiritualizado e evoluído... Como poderíamos nos conectar a conceitos tão elevados se somos constituídos de carne e ossos, e essa carne sangra e queima ao mesmo tempo em que anseia por prazer? 

Não estou me referindo as exceções, e é claro, tivemos muitas. Pessoas genuinamente evoluídas. Não perfeitas, mas quase. E também o oposto disso... O que nos leva de volta as já citadas palavras-chave... Aleatoriedade. Pluralidade. Identidade. 

Em termos "não metafísicos" essa é a resposta que lhes dou para a pergunta "como terminamos"? 

Somos humanos e levamos tudo as últimas consequências. E isso é uma grande parte do que somos, mas não tudo. Então quem somos? Não sei responder... E peço desculpas se dei a entender que lhes explicaria isso. 

Quem sabe tenhamos sido apenas meros vagantes experimentando o universo. Construindo e destruindo, criando conceitos e questionando-os o tempo todo. 

Mas e agora que não estamos mais aqui?  Vocês se lembram de nós com reverência ou desprezo? Somos fósseis de uma época primitiva e esquecível? Vocês se importam de alguma forma?

Eu sei, nunca fomos perfeitos. (E a perfeição, se querem mesmo saber, é algo superestimado). Mas de alguma forma, tentamos ser melhores.

Nós conseguimos ou falhamos? E se "conseguir e falhar" sejam elementos indivisíveis e necessários um ao outro?

É tudo a mesma coisa? No fim das contas... Todos sempre fomos apenas um? 

Vocês... Somos nós?

Eu sei, isso faz parte daquela teoria maluca que mencionei antes e realmente gosto de acreditar, mas a verdade é que não tenho nada que possa nem de longe embasar essa tese. 

Essa resposta, presumo, são vocês que possuem e ninguém mais. 

Vocês (ou você) que vierem (ou veio)... 

...Depois de nós. 


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