Com o fim da raça dominante de Amarath, alcançando assim seu ápice evolutivo, eles deixaram esta realidade, transcendendo para um nível espiritual mais elevado, não sem antes deixar uma última dádiva ao cosmos, uma semente tecno evolutiva capaz de se enraizar numa cultura civilizatória despertando assim o melhor de cada indivíduo além de compartilhar seus conhecimentos médicos, espirituais e biológicos. Tal semente fora posta em um invólucro impenetrável, o Ovo da Vida, lançado ao espaço em busca de um planeta apto a receber seus dons.
Há alguns anos-luz de distância de Amarath, o Ovo da Vida deparou-se com um planeta compatível com as diretrizes de seus criadores, chegando em Lor. Este era um mundo de conflito e tortura, onde se nascia para o combate e a paz era um conceito esquecido. Muitos e diferentes partidos, opiniões, convicções e doutrinas. Religiões castradoras e governos fascistas. Onde a sobrevivência era uma questão de se juntar aos monstros, onde crianças pegavam em armas e adultos morriam em surtos de ódio.
Seu nome era Yassef Sarraceno e já tinha trinta e oito anos de idade conforme a medida de tempo e perspectiva de vida dos habitantes de Lor, o que fazia dele um homem adulto no auge de sua experiência mortal, quando se aposentou do serviço militar, onde atuava como um agente de elite tendo como rotina a repressão de manifestações populares sempre com respostas extremamente violentas ou mesmo fatais com total respaldo do governo.
Sarraceno nasceu na cidade alta de Preces, capital de Altar Celeste, a principal metrópole teocrática da grande nação de Pax.
Sua aposentadoria ocorreu logo após o grande golpe dos assim chamados “Suicidas da Pátria” um grupo de opositores ao Estado, dispostos a morrer a fim de promover as mudanças que acreditam ser tão urgentes e necessárias, muito embora essa contenda se estenda por tanto tempo que o objetivo inicial sequer é lembrado ou faz diferença pelos seus membros, uma vez que a esperança real já não existia em seus corações, e em meio a tanto sofrimento de uma sociedade corrompida, a morte lhes parecia a única saída possível desse pesadelo infernal.
O golpe foi unificado, certeiro e poderoso. Cerca de vinte e cinco mil pessoas morreram imediatamente durante a celebração do Lúcido Pai, padroeiro da purificação racial que vinha ocorrendo há alguns anos resultando ao todo em mais de cinco milhões de mortes de pessoas miscigenadas ou consideradas indignas.
Sarraceno teve seus braços quebrados e foi esquecido em uma vala séptica, o que pode ter salvo sua vida, uma vez que o afundamento do chão o levou a um córrego dos esgotos que por sua vez o levou inconsciente para longe do epicentro das bombas que derrubaram o templo do Lúcido Pai. Quando ele acordou, sabia que tinha ferimentos que não cicatrizariam e dores que nunca mais o abandonariam.
Preces se tornou uma cidade sem lei, a onda anarquista se alastrou rapidamente pelo Altar Celeste e não demorou para que a ideologia dos Suicidas da Pátria se espalhasse por toda o território de Pax. Outras nações interferiram apenas piorando a situação, pois além das bombas e das pragas biológicas liberadas por ambos os lados do embate, deixavam claro que ninguém mais esperava por salvação. Só o que importava era a liberdade, não interessando de que modo ela chegasse.
Havia uma pequena fazenda contaminada nos arredores de Catedral, onde um pequeno grupo de sobreviventes neutros se reuniam. Após vagar sem rumo por muitos dias, matando alguns que cruzaram seu caminho, Sarraceno chegou à tal lugar.
Durante todo esse tempo, o Ovo da Vida de Amarath permaneceu oculto nas profundezas lodosas de Lor, catalogando e registrando o mundo escolhido e contemplado com as maravilhas de uma raça sobre a qual eles nunca haviam ouvido falar, e estava atualmente em outro patamar da criação, tendo aprendido no decorrer dos éons a banir toda a dor, sofrimento, violência, preconceitos e negatividade de suas existências.
Não por acaso, o Ovo da Vida de Amarath estava emergindo de dentro das plantações arruinadas e do solo contaminado pela radioatividade e o veneno criado com tanto afinco pelos alto sacerdotes do Altar Celeste de Preces, misturado com as não menos tóxicas investidas dos Suicidas da Pátria em seus retumbantes esforços de eliminação mútua.
Em meio a carcaças de gado e velhos troncos apodrecidos de antigas árvores, o Ovo da Vida de Amarath deu os primeiros sinais de que iria chocar.
Sarraceno mal havia se recuperado dos ferimentos, e não devia sequer ter saído da cama naquela manhã, mas como que impelido por um instinto primitivo, se viu tateando a relva contaminada aos primeiros raios do sol rubro, chegando então a clareira de onde brotavam os ramos iniciais da tecnologia benigna do Ovo da Vida de Amarath.
Seus olhos contemplaram com assombro as ramificações irregulares que aos poucos ganhavam forma. O que elas se tornariam? E com que propósito?
Os reflexos de Yassef Sarraceno ainda estavam afiados, então ele sacou sua arma assim que ouviu o vento se curvar nas sombras ao seu redor. Embora sua mira fosse extraordinária, não havia nada que pudesse fazer cercado por cinco dos muito bem treinados cavaleiros de sua antiga ordem.
O sol rubro refletiu na face translúcida do Ovo de Amarath, agora plenamente ativo, ofuscando brevemente a todos quase ao mesmo tempo que fora manchado com o sangue e o suor do único sobrevivente da emboscada.
Uma nova Era surgiria então...
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