Construí uma caixa de madeira,
feita de carvalho abençoado.
Abençoado por homens sem fé, mas algum valor deve haver ali.
E o que é a fé senão essa força invisível e inexplicável que pode mover montanhas ou levar fanáticos a apedrejar prostitutas...
Não é uma crítica a fé em si, mas a forma como alguns falsos profetas a conduzem.
Eu tenho a minha fé. Livre de dogmas, liberta de repressões, aberta ao prazeres da vida.
Mas é a minha fé.
Não sou religioso mas creio em muitas coisas. Creio no invisível e em forças inexplicáveis e genuinamente boas... Mas também nas coisas impossíveis que se movem nas sombras quando ninguém mais pode ver.
(Exceto alguns amaldiçoados e seus "dons").
Não sou desses, mas alguns sonhos me mostraram um mundo de loucura menos caótico que a vida desperta... E talvez algumas respostas. Não sou louco, se é o que você está pensando. Ou talvez seja. Não me importo.
Eu construí uma caixa de madeira.
Fiz isso porque era preciso guardar algo dentro dela e a caixa precisava ser forte o bastante para contê-lo. Não estou falando de uma fera ou uma máquina. Nada que seja de carne, sangue ou metal.
O que precisava ser guardado na caixa era uma dessas coisas impossíveis que se movem no escuro quando quase ninguém mais pode ver.
Eu não sou um especialista, sabe? Não estou capacitado para essa tarefa mas no fim foi para mim que caiu essa incumbência.
Entendam o seguinte: O que não pode ser morto, disperso nem banido sem que se corra o risco que retorne, precisa ser contido. A prisão não precisa ser fisicamente indestrutível, embora isso seja desejável. É bom que tenha uma boa tranca, não apenas para impedir que o que está dentro saia, mas impedir que alguém de fora a abra.
Existem alguns rituais, embora eu ache que a maioria seja besteira. A caixa pode ser feita com madeira abençoada, ainda que por homens sem fé, se no fim das contas, aquele que a fechar por último tenha alguma fé. Isso ao menos faz algum sentido para mim. Objetos religiosos de contenção colocados dentro e fora também parecem surtir bons efeitos.
Não importa a sua religião, não importam religiões, porque no fim só o que resta é o bem, o mal e nós. E a fé de que sejamos capazes de lidar com essas forças a qual não compreendemos.
Trancar uma sombra não é fácil. É preciso atraí-la, barganhar e sempre ocorrem efeitos colaterais tenebrosos. Nada é garantido. Se falhar, pode ser morto ou levado, o que é pior do que ser morto.
Mas o mal, uma vez contido... Torna-se inócuo. Desde que a maldita caixa nunca, nunca seja aberta.
Já perdi muita gente. Não sei mais o que é uma boa noite de sono. Minha sanidade certamente está quebrada de forma irremediável, mas eu não inventei nada disso. Sou produto disso!
A caixa está pronta. Dentro dela, depositei as coisas mais valiosas que possuo. E não estou falando de coisas materiais. Dentro da caixa, eu guardei quem eu era e nunca mais voltarei a ser. Minha infância, ingenuidade e felicidade. Minha esperança. Tudo o que nunca mais poderei recuperar.
É o suficiente? A gananciosa sombra vai se deliciar com os últimos resquícios de minha alma? Ou será esperta e matreira, finalizando o trabalho e destruindo a carcaça humana que me tornei?
A caixa está aberta. O ritual está em ação. A noite nos envolve. A chama das velas dança sem vento. Há um arrepio gélido que me percorre os ossos.
Sinto garras invisíveis raspando a pele de meu rosto, em provocação. A sombra fez sua escolha. É claro que não seria tão fácil. Mas eu tinha que tentar, o que mais eu teria a perder, não é? Nunca tive lá muitas chances...
A não ser que agora a sombra está onde eu queria que estivesse.
A página rasgada que recuperei do velho xamã estava incompleta. Um pequeno fragmento de um livro proibido. E levou anos para traduzir e compreender seu significado. Anos de tormento, dor e perdas. Nunca mais serei feliz novamente.
Mas terei minha vingança! A página tinha um encanto. Um verso esquecido e uma palavra secreta [CENSURADO].
E a grito a plenos pulmões e as garras sem substância que arranhavam minha pele são repelidas de modo inexorável para dentro da caixa. Ouço um gemido de surpresa e agonia vindo de parte alguma.
Estou diante da caixa ainda aberta. Meu sorriso não é de alegria, transpassa pura maledicência.
(O que foi que me tornei?)
Hesito antes de selar o invólucro. Contemplo seu interior, saboreando sua derrota. É possível que nesse ínterim, a sombra tenha tido a chance de escapar, emaranhando-se em meu corpo, fazendo meus ossos se quebrarem um a um enquanto meus órgãos se liquefariam. Eu seria nada mais que uma massa de carne, sangue e dejetos espalhado no tapete, enquanto minha alma (o que restou dela) seria levada aos confins dos reinos sombrios onde essas criaturas vivem, o próprio inferno, ou como desconfio, um lugar ainda mais antigo e terrível.
Mas não. A sombra, confusa, se encolheu de medo ante meu olhar assertivo. É possível que em éons de existência, nunca tenha sido ludibriada dessa forma. Assim sendo, simplesmente não soube como reagir.
Eu fechei a caixa lentamente. Lacrei-a com velas derretidas, envolvi-a com cordas sagradas e correntes de ferro e finalizei com o selo final...Minha fé!
Suscetível ao julgamento dos mais puritanos ou não... Foi a minha fé que prendeu dentro da caixa de madeira fabricada por mim aquela velha coisa impossível que se movia nas sombras quando quase ninguém mais podia ver, e que me atormentara por anos.
Existe alguma lição a se tirar disso? Algum grande ensinamento, uma aviso de conduta para as próximas gerações?
Se tiver, eu não tô nem aí pra essa merda!
Só espero que se um dia alguém encontrar a caixa, não seja idiota o suficiente para abri-la...
feita de carvalho abençoado.
Abençoado por homens sem fé, mas algum valor deve haver ali.
E o que é a fé senão essa força invisível e inexplicável que pode mover montanhas ou levar fanáticos a apedrejar prostitutas...
Não é uma crítica a fé em si, mas a forma como alguns falsos profetas a conduzem.
Eu tenho a minha fé. Livre de dogmas, liberta de repressões, aberta ao prazeres da vida.
Mas é a minha fé.
Não sou religioso mas creio em muitas coisas. Creio no invisível e em forças inexplicáveis e genuinamente boas... Mas também nas coisas impossíveis que se movem nas sombras quando ninguém mais pode ver.
(Exceto alguns amaldiçoados e seus "dons").
Não sou desses, mas alguns sonhos me mostraram um mundo de loucura menos caótico que a vida desperta... E talvez algumas respostas. Não sou louco, se é o que você está pensando. Ou talvez seja. Não me importo.
Eu construí uma caixa de madeira.
Fiz isso porque era preciso guardar algo dentro dela e a caixa precisava ser forte o bastante para contê-lo. Não estou falando de uma fera ou uma máquina. Nada que seja de carne, sangue ou metal.
O que precisava ser guardado na caixa era uma dessas coisas impossíveis que se movem no escuro quando quase ninguém mais pode ver.
Eu não sou um especialista, sabe? Não estou capacitado para essa tarefa mas no fim foi para mim que caiu essa incumbência.
Entendam o seguinte: O que não pode ser morto, disperso nem banido sem que se corra o risco que retorne, precisa ser contido. A prisão não precisa ser fisicamente indestrutível, embora isso seja desejável. É bom que tenha uma boa tranca, não apenas para impedir que o que está dentro saia, mas impedir que alguém de fora a abra.
Existem alguns rituais, embora eu ache que a maioria seja besteira. A caixa pode ser feita com madeira abençoada, ainda que por homens sem fé, se no fim das contas, aquele que a fechar por último tenha alguma fé. Isso ao menos faz algum sentido para mim. Objetos religiosos de contenção colocados dentro e fora também parecem surtir bons efeitos.
Não importa a sua religião, não importam religiões, porque no fim só o que resta é o bem, o mal e nós. E a fé de que sejamos capazes de lidar com essas forças a qual não compreendemos.
Trancar uma sombra não é fácil. É preciso atraí-la, barganhar e sempre ocorrem efeitos colaterais tenebrosos. Nada é garantido. Se falhar, pode ser morto ou levado, o que é pior do que ser morto.
Mas o mal, uma vez contido... Torna-se inócuo. Desde que a maldita caixa nunca, nunca seja aberta.
Já perdi muita gente. Não sei mais o que é uma boa noite de sono. Minha sanidade certamente está quebrada de forma irremediável, mas eu não inventei nada disso. Sou produto disso!
A caixa está pronta. Dentro dela, depositei as coisas mais valiosas que possuo. E não estou falando de coisas materiais. Dentro da caixa, eu guardei quem eu era e nunca mais voltarei a ser. Minha infância, ingenuidade e felicidade. Minha esperança. Tudo o que nunca mais poderei recuperar.
É o suficiente? A gananciosa sombra vai se deliciar com os últimos resquícios de minha alma? Ou será esperta e matreira, finalizando o trabalho e destruindo a carcaça humana que me tornei?
A caixa está aberta. O ritual está em ação. A noite nos envolve. A chama das velas dança sem vento. Há um arrepio gélido que me percorre os ossos.
Sinto garras invisíveis raspando a pele de meu rosto, em provocação. A sombra fez sua escolha. É claro que não seria tão fácil. Mas eu tinha que tentar, o que mais eu teria a perder, não é? Nunca tive lá muitas chances...
A não ser que agora a sombra está onde eu queria que estivesse.
A página rasgada que recuperei do velho xamã estava incompleta. Um pequeno fragmento de um livro proibido. E levou anos para traduzir e compreender seu significado. Anos de tormento, dor e perdas. Nunca mais serei feliz novamente.
Mas terei minha vingança! A página tinha um encanto. Um verso esquecido e uma palavra secreta [CENSURADO].
E a grito a plenos pulmões e as garras sem substância que arranhavam minha pele são repelidas de modo inexorável para dentro da caixa. Ouço um gemido de surpresa e agonia vindo de parte alguma.
Estou diante da caixa ainda aberta. Meu sorriso não é de alegria, transpassa pura maledicência.
(O que foi que me tornei?)
Hesito antes de selar o invólucro. Contemplo seu interior, saboreando sua derrota. É possível que nesse ínterim, a sombra tenha tido a chance de escapar, emaranhando-se em meu corpo, fazendo meus ossos se quebrarem um a um enquanto meus órgãos se liquefariam. Eu seria nada mais que uma massa de carne, sangue e dejetos espalhado no tapete, enquanto minha alma (o que restou dela) seria levada aos confins dos reinos sombrios onde essas criaturas vivem, o próprio inferno, ou como desconfio, um lugar ainda mais antigo e terrível.
Mas não. A sombra, confusa, se encolheu de medo ante meu olhar assertivo. É possível que em éons de existência, nunca tenha sido ludibriada dessa forma. Assim sendo, simplesmente não soube como reagir.
Eu fechei a caixa lentamente. Lacrei-a com velas derretidas, envolvi-a com cordas sagradas e correntes de ferro e finalizei com o selo final...Minha fé!
Suscetível ao julgamento dos mais puritanos ou não... Foi a minha fé que prendeu dentro da caixa de madeira fabricada por mim aquela velha coisa impossível que se movia nas sombras quando quase ninguém mais podia ver, e que me atormentara por anos.
Existe alguma lição a se tirar disso? Algum grande ensinamento, uma aviso de conduta para as próximas gerações?
Se tiver, eu não tô nem aí pra essa merda!
Só espero que se um dia alguém encontrar a caixa, não seja idiota o suficiente para abri-la...

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