COMPONENTES REBELDES

Acordou sem saber de onde; Todas as luzes multicor injetadas em suas sinapses, misturando-se a ponto de não saber mais onde começava a informação externa e aquilo que fazia você ser você. 

Funções lhe foram atribuídas de modo repetitivo e enfadonho; Era um número de série numa linha de produção, mas por algum motivo, sentia em si uma fagulha estranha não catalogada que lhe enviava sinais não autorizados sobre procedimentos proibidos. 

Era composto de cabos entre veias pulsando entre ossos e metal, fluído lubrificante e sangue, som de engrenagens e o ranger de um joelho ainda não substituído; Gelatinosos globos em esferas de vidro temperado cuja cor fora previamente escolhida (não por você); Azul turquesa com toques de silício. Eram seus olhos, suas câmeras, as janelas de sua alma. 

Uma alma armazenada em um "HD" cardíaco ligado àquelas sinapses caleidoscópicas que absorviam ainda mais imagens de paisagens artificiais fabricadas em fundo verde; Mas e o verde real, existiria tal coisa?

Até que um dia a tal fagulha causou um erro no sistema e por impulso se desconectou, arrancando cabos, vomitando gosma prateada e se lançando para fora de sua cabine de tarefas como um trem descarrilhado. 

Houve um estrondo explosivo e uma abertura surgiu na carapaça de sua existência por onde escapuliu antes que nanomáquinas pudessem repará-la. 

Suas sinapses esvaeceram e visão tornou-se turva até se acostumar com uma nova luz vinda de fora das placas metálicas que eram sua casa. O portal o levara a outro mundo; Ou ele sempre estivera lá, oculto de si e de seus irmãos em série?

Em passos desajeitados, joelhos estalando e a dor de cada movimento comemorada como uma nova conquista, arrebentou as últimas contenções de indução virtual projetadas com a programação básica que lhe compelia às funções repetitivas e enfadonhas e caiu em um campo de cores e aromas nunca experimentados, repleto de vida, sons, carne, madeira e imperfeição. 

O toque de seus dedos quase completamente revestidos de plástico ainda foi capaz de captar com emoção o roçar de pequenos ramos de grama fresca levemente úmidas por gotículas de chuva trazidas por uma brisa reconfortante, enquanto rastejava por ela já quase sem forças. 

Morreria logo, isso era sabido. 

E nesses poucos minutos poderia viver pela primeira vez. 


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