Poema Surrealista I
Eu quero perder o que senti.
Acorde, você tem que ir embora para sempre.
Sentimentos achados dentro de um baú de vidro.
O ódio que tens de mim é amor espelhado.
Me cobriu um par de asas negras protetoras.
Quando você beber, verá que ainda sente a minha falta.
Surpreendente, encontrei-me no limite de tua dor.
Ninguém me ligou na madrugada, mas fui muito feliz.
E às vezes tento esquecer essa ferida exposta.
Assisto filmes de trás pra frente e faço meu amor chorar.
Atravessei imprudente o inverso de mim mesmo.
Você ajeita o cabelo, se mexe, balbucia, e seu corpo
denuncia.
Na loucura purificante finquei solo santificado.
Quando você parar pra pensar, vai ter fé?
Mas as vozes sempre voltam, me forçando a confrontar.
Eu te quero de uma forma que tenho medo.
E de um apelo suspirante, invoquei tua presença.
Amor é bálsamo, mas romantizar é se perder.
O que me deixaste não foi ouro, mas foi o bastante.
Gostaria de ver-te anulada. Como a gênese inversa.
Poema Surrealista II
Saiba que esqueci teu nome e recortei o meu entre vocábulos.
Toda virtude então germina desgastada.
As missas estão como minha vida: decoradas e sem sentido.
Mas que se tenta elevar, embora cego.
Eu rezei até rasgar meus joelhos e padeci, pois não sei orar
com coração.
Pois a tristeza não só nubla, nos mastiga.
Os gatos não me querem deixar dormir. Eu não quero
continuar.
E a tua ausência em mim retumba insistente.
As pessoas a minha volta soam como músicas distantes e
entorpecidas.
Não me faça para ti marionete.
E o sabor do cálice que apreciei em taça de ouro era nulo.
Entenda, a fonte a qual vieste já é finda.
Às vezes sinto que tenho mais pernas do pés.
Inauguras em meu peito o sentimento.
Quando tento correr, é como se acentuasse minha lentidão.
Então deturpa o que antes fora imaculado.
Gostaria muito de que se lembrassem de mim como um doido
culto.
E me permitas resistir ao teu afago.
Até o dia em que você partir da Terra, vou não lembrar de
nada.
Pois no fim sempre nos vemos imperfeitos.
Poema Surrealista III
Compreendeste estático a mensagem.
Verborragia, dúvidas, Santos e mausoléus. Vá para longe.
O ontem não se repetirá, embora queiras.
Quero que vá embora e leve consigo sua doença.
Do rubro vinho bebeste, ou sangue, que importa?
O que desejo em você é o que sempre projetei. Você não
existe.
Mataste em mim o que desejaste por despeito.
Não! Não abre-te em boca, sorrisos ou lágrimas.
Sorri calado ante a tua ingenuidade.
Com a mesma faca que arrancaste meu coração, vou abrir uma
clareira para que fujas.
Calei sozinho ante teu senso deturpado.
Quando já estiver longe vai olhar estrelas e ver foices.
Vaguei distante até perder-me do marasmo.
Se acordar em meio a noite em pesadelo, direi amém.
Tentei sem chances derrotar teu egoísmo.
Seu filho vai ser doce e cair como você me ensinou?
Quando foi que me perdeste de ti?
É tão simples a vida como equações ainda não descobertas.
E onde escondeste o tesouro que roubaste?
Esqueças que eu fui ou vou, mas não que vais pagar.
Só as estrelas consentiram com teu ódio.
Aqueça-te a noite com os insultos que estudei para te ter.
Por que ficaste tanto tempo do meu lado?
Não me procure nem que seja eu o último. Sou tua lepra.
E o que eu procuro é só uma gota de carinho.
Eu vou ter cura quando você decrescer em idade.
Me afaste de teus dedos congelados.
Até que desistam anjos de voar, eu vou ser sonho bom,
antídoto e veneno.
E o que esperamos no final de cada encargo?
Poema Surrealista IV
Deixo meu testamento nas borras do café, nas cartas de Tarot
e nas contas à pagar.
Quando não consigo desviar a direção dos aviões, quando todos
colidem nas torres gêmeas.
Entenda como quiser, mas não tenho nada desse mundo.
E me vem um medo irracional de não tentar procurar mais uma
vez o que nunca foi perdido.
As vezes acordo com cães ferozes em cima de mim a me rasgar.
Tua graça! O teu sorriso e tua afeição. E isso me basta.
Eu quero chorar, mas é tão difícil que nem lágrimas se
sucedem.
Porque esquecemos de como desencorajar nosso pavor de tentar
vencer os obstáculos.
Meu Deus, vou estudar mais, acho que vou morrer.
Amanhã, quando a febre baixar, vou tentar sorver teu
espírito inócuo antes de morrer.
Enquanto nada se sucede, nem lágrimas ou ópio, vou lembrar
de você.
E nunca seremos escravos de nossas próprias restrições, pois
sobrevivemos ao jugo auto imposto.
Gostaria de ter mais olhos, mas tenho mais línguas.
A verdade sempre transborda de nós, como se fosse ácido o
nosso sangue, e revela nossas fúteis maquinações.
Deixo quando partir, canções que plagiei e vasos de flores.
Prefiro pensar que não te ver significa poder estar contigo
em espírito.
Lendas, rimas não, visões, outras em vão, eu não sei o que
fazer.
Quando a noite cobre nossas casas, vejo como foi
desperdiçado mais um dia de escravidão.
Ligo o rádio e as boas canções não tocam.
Não beba antes de dormir, ou dará asas aos seus perseguidores.
Não me conte historinhas de gente morta e mutilada, o meu
dia vai chegar.
De amar fiz ventania e a mais distante oração.
Com as esmolas que me deste, comprarei a lápide de prata que
enfeitará o teu túmulo.
O que você vai ser quando crescer?
Não me obrigue a não pensar no quanto eu seria melhor se não
pensasse como você.
O que será de nós?
E agora chora diante da poça de sangue provocada por meus
pulsos cortados? Quem me cortou?
Posso apagar a luz e esquecer de tudo?
Minha vida foi quase torta, mas meu ponto de equilíbrio
amorteceu a queda.
Por Henry Garrit e
Bruno Bernardino. (In Memorian).

Comentários
Postar um comentário