A Poeira na Estrada

Com metal em seu ventre cravado,
por uma esquecida trilha da guerra,
ruge imponente o nobre soldado,
com os pulmões repletos de terra.

Caminhando inclemente em seu sangue vigia,
lembra-se da outrora beleza deste mundo,
enquanto arrasta em seu peito úmida agonia,
recordações que esvanecem ao céu moribundo.

Lembra-se das estrelas que enfeitavam aos céus,
antes da escuridão humana se interpor,
quando em tardes sem guerra voltava aos seus,
e encontrava sorrindo seu pretendido amor.

Convocados as pressas e por fim separados,
seguiram seus rumos com amargo sofrer,
distantes do outono que segundo seus planos,
poderiam então voltar a se ver.

A guerra que os cercava faminta de carne,
e gritos insanos que se ouviam fulgurosos,
não apiedo-se em lhe cravar os dentes em seu cerne,
retidos nas trincheiras de esconderijos lamacentos.

Por fim vitorioso o verão retornou,
estarrecido do estrago que houvera,
Viu padecer inverno e outono,
mas se alegrou de existir ainda a primavera.

E ao procurar o soldado seu amor prometido,
permitiu doer em seu ventre a adaga,
encontrou-o esfumaçado no vilarejo destruído...

depois de vencida a guerra sua dívida estava paga!




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