Fagulha

Haverá talvez,
dessaudoso dia,
onde a esperança era dispersa,
e as nuvens trovejavam furiosas suas injúrias divinas,
e o temor nos fazia reféns de nossa própria mácula incontrolável,
quando as horas se apresentavam como vidro a nos rasgar a carne.
Quando éramos jovens demais para domar os ventos,
e velhos demais para enxergar os sonhos,
e fracos demais para derrotar as feras,
e fortes demais para demonstrar compaixão.
Nessa alquimia eterna,
de invariável mutação e busca,
redescobrindo a cada dia,
a cada despertar,
o que nos resta,
senão o dia?
senão o despertar?
E alcançamos assim,
cicatrizes à mostra,
e tantas lágrimas depois,
tanto vazio e mágoa,
tanto ódio e rancor,
nos arrancando a pele,
nos arrasando a alma,
para nos mostrar,
então,
Que bem ao fundo dessa treva,
onde por vaidade ou orgulho não olhávamos...
lá estava ela,
a partícula adormecida,
paciente e serena,
aguardando a descoberta,
meiga e pacifica.
Aquela voz,
que transcende as palavras,
e nos aquece,
nos resgata,
nos traz de volta.
E não nos deixa em sono,
ao desfazer a noite,
e deslindar o primeiro raio da manhã.
É a fagulha sem nome,
bondade inerente que nos acomete,
que perdoa e nos faz perdoar,
generosa como o sol,
fluindo dentre vós,
para os outros,
e dos outros,
de volta.






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