Caminhada vespertina




Somos todos engrenagenzinhas movendo o mecanismo do destino.

Hoje eu quase fui atropelado por uma moto, mas o relógio voltou por momento e ela passou rente a mim. Pude apenas sentir uma leve corrente de ar nos separando.

Um carro esmagou uma garrafa de água esquecida na calçada quando eu me aproximava, estourando-a, mas o relógio voltou mais uns segundos e nenhuma gota me tocou. Ainda posso ver as pequenas jóias translúcidas flutuando pelo ar em câmera lenta.

Sem motivo algum, eu decidi fazer um caminho diferente do que costumo e o relógio retrocedeu, fazendo eu me deparar com três amigos que não via há tempos, em três momentos distintos. Cada um deles me acrescentou, à sua maneira, um pouco mais de otimismo ao meu dia.

Quando eu terminei a última conversa, reativei o player de músicas do celular, e o coloquei no aleatório. Quando voltei a ouvir, tocava uma canção que eu nem me lembrava que estava lá, e ela me fez refletir sobre coisas que eu não teria pensado se tivesse tocado qualquer outra coisa.

Somos engrenagenzinhas nos movendo no modo aleatório.

Quem move os ponteiros? E o que será de nós quando, ao invés de retroceder, o relógio avançar?
Nunca estaremos prontos para o próximo passo, sempre inconstante, sempre imprevisível...

Eis a beleza da vida!

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